O que falar de Paris que não seja exagerando em superlativos, em grandiosidades que tentem (sem sucesso) traduzir a quantidade e dimensões de seus museus, de suas casas de espetáculo, de seus teatros de ópera, de seus monumentos, parques e bulevares, de seus restaurantes estrelados, de seus bares de moda, de seus cachorros e cafés?
Falar de Paris, é em si um desafio e tanto para quem não quer cair na mesmice turística pasteurizada, de city-tours clássicos e de must-sees evidentes. Só para dar uma ideia, Paris briga com Nova Iorque pelo título de cidade-mais-visitada-do-mundo, ostentando, ambas, cifras de cerca de 40 milhões de visitantes ao ano (Comparando: visitam o Brasil – inteiro – anualmente cerca de 3,5 milhões de turistas). Paris encanta pela arquitetura, pela diversidade, pelos restaurantes, pelas lojinhas especializadas, pelo novo dimensionamento que visitá-la dá à expressão “aproveitar a vida”.
Em nossa primeira tarde em Paris, agora num fevereiro gelado, decidimos sair a caminhar despretenciosamente, de nosso hotel, localizado a pouco mais de 50 metros da Torre Eiffel aos Invalides, um ex-hospital de guerra, hoje museu de história com foco em exércitos e suas circunstâncias, onde Napoleão descansa numa tumba à altura de suas conquistas e do personagem que foi. Nossa caminhada tinha uma missão menos nobre do que cultuar a história francesa: comer. Não pensávamos necessariamente em sentar formalmente em um restaurante, até porque o relógio sinalizava quase 15h00 e as coisas neste horário não são fáceis de se encontrarem abertas e com disposição de atender um almoço tardio. De indicação em indicação, tentaríamos um café – Le Petit Cler – numa tal de Rue Cler, onde nunca pisáramos em viagens anteriores. Lá chegamos, gelados até os ossos, fomos conduzidos simpática e rapidamente à mesa. Quando já conseguíamos pronunciar algum som, descongelando os músculos faciais, optamos por uma terrine de campagne, com uma baguete, por uma sopa de cebola gratinada, por uma tábua de presunto cru e queijos e por último, por um filé alto, com batata assada ao forno e um molho roquefort, pois minha filha do alto de seus 10 anos, não é chagada a frivolidades culinárias e prefere as porções e serviços mais tradicionais. Para acompanhar, a leveza de um Côtes du Rhone indicado pela casa. A refeição foi ótima, apesar de singela, simpática, num café bem bacaninha, em estilo tradicional, com móveis de madeira escura e paredes de espelhos bisotados. Talvez pelo cansaço da viagem, ou talvez pela fome, foi somente ao sair do café é que nos demos conta da vizinhança onde estávamos.
A Rue Cler é um daqueles recantos que só mesmo em Paris para, sem pretensões, tropeçarmos neles. É uma festa. Uma festa gastronômica. Uma festa para os olhos, para os sentidos todos, para o prazer. Onde mais encontraríamos uma loja de chocolates de uma marca que nunca ouvíramos falar, quase que conversando com o chocolatier em carne e osso, com um atendimento que nada remete à fama dos parisienses, com falas eloquentes – e degustações – sobre produtos duma beleza estética, de um sabor e de uma textura comparáveis aos grandes mestres espelhados por Paris? Onde, ao lado, encontrar uma boulangerie, vendendo mais de 60 tipos de pão? Onde, em frente, encontrar uma loja de queijos, com mais de 150 tipos, em seus aromas e cremosidades, cores e temperos? Uma cave de vinhos, em sequência, sendo na verdade pouco mais que uma lojinha especializada em meia-dúzia de produtores (ainda) sem a fama que merecem? E o que falar da charcuterie, com embutidos e carnes primorosas? (E com a possibilidade de levar comida prontinha, quentinha para casa?) E o açougue…ah, o açougue. Uma butique de carnes linda, na verdade. As bancas (lojas) de legumes e frutas soaram como uma explosão de cores em meio ao acinzentado do dia frio, com aromas pronunciados somente fazendo competição – acirrada – com uma floricultura multicolorida instalada ao lado. E como descrever a experiência de visitar uma loja de mel – aquele mesmo, o de abelha – com mais de 30 tipos, com recomendações explícitas do proprietário sobre qual serve para quê? Pertinho, experimentar uma loja de conservas e geléias, com todo o estilão artesanal charmosíssimo de ser produzida por hábeis e já velhas mãos francesas.
Adiante, uma banca de ostras da Normandia, com tipos, tamanhos e variedades capazes de satisfazer os mais entendidos e entediados. Uma peixaria, com lagostas vivas, à espera de suas escolhas, e peixes e furtos do mar e um sem numero de patês, saladas, terrines e gallantines com frutos do mar. Uma loja só de foie gras, de ganso, de pato, em todas as suas variações, em bloc, cru, em conserva, em terrines. Se eu tivesse paciência, até falaria dos restaurantes da rua, mas isto deixarei para você ir lá visitar pessoalmente.
Enfim… Rue Cler esbanja em pouco mais de 3 quadras, o talento de resumir uma Paris Gastronômica, rica, detalhista, sofisticada e imprescindível. Deve haver uma centena de Rues Cler espalhadas por Paris. Mas caminhar por ela, em meio a neve fraca, ao vento cortante e ver aquela pulsação de vida e de sabores foi uma experiência que nos trouxe a certeza de que Paris é o que é porque o é diferente para cada um.
by Luciano Vignoli – Diretor da e21


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